Berço da Pátria

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Sonho cívico

CONFERÊNCIA CONCLAMATIVA PROFERIDA NO INSTITUTO

HISTÓRICO E GEOGRÁFICO EM SESSÃO ESPECIAL NO DIA 20 DE

NOVEMBRO 1996


Prezados Consócios do IHG – MG


Solicitei do nosso Presidente, Prof. Herbert Sardinha Pinto, que autorizasse a realização desta Seção Especial, e a remessa da convocação de todos os senhores, datada de 04/11/96, na forma que a redigi e ele aprovou. Agradeço a atenção que me estão dispensando e passo a explanar e detalhar a proposta que fiz nesta Casa, na sessão plenária de abril 94.

Sabemos que todas as civilizações, mesmo as mais primitivas, procuraram imortalizar o que julgavam de maior transcendência, como deuses, heróis e acontecimentos mais marcantes de sua identidade coletiva, representações de sua cultura, suas conquistas e vitórias. Daí encontrarmos em todas as regiões do mundo, belos e grandiosos monumentos arquitetônicos, estátuas e obras de arte que, resistindo à ação do tempo, trouxeram até nós e levarão às gerações futuras a história dos povos e nações que os construíram. Alguns desses povos e nações desapareceram, e sua existência permaneceu completamente ignorada por séculos, e eternamente assim permaneceriam se os monumentos que construíram não tivessem sido resgatados às areias do deserto que os sepultavam, ou às tentaculares árvores das grandes florestas tropicais que os escondiam. Essas civilizações desapareceram, mas não morreram, porque sua memória continua vibrante nas obras físicas que nos legaram, muitas delas contando, através de gráficos e pictóricas, nelas gravadas, sua emocionante história.

Mais recentes e bem conservadas são as de origem egípcia, grega e romana. As duas últimas não se limitam à finalidade de perpetuar a memória dos seus governantes, mas sim, em grande parte a registrar o cotidiano dos seus habitantes e a cultura e os feitos de seus povos. E assim procederam todos os povos seus contemporâneos ou que lhes sucederam. Mesmo nos dias atuais, as principais nações, as do chamado primeiro mundo, cultivam intensamente seus heróis e os símbolos nacionais, para manter vivas as glórias do passado que alimentam o orgulho nacional e constituem um paradigma de conduta para a consecução dos objetivos nacionais.

O Brasil, embora jovem e pacífico, é rico em grandes feitos individuais e coletivos, dentre os quais alguns, como os movimentos sediciosos da Vila do Carmo em Minas, a Confederação do Equador, a Balaiada, a Revolução Praieira e a Revolução Farroupilha, mostraram nossa inquietude e a ânsia, embora ainda de forma nebulosa, de adquirir uma identidade, ou de inconformismo e não aceitação do que parecia querer tolher a liberdade já conquistada.

A primeira manifestação contraria à dominação estrangeira foi a reação à invasão holandesa quando, contrariando ordens da corte portuguesa, conseguimos nos unir, não como um povo, mas como três povos diferentes – brancos, negros e índios – cada um singularmente representado, derrotando o invasor batavo e reimplantando o espírito português. Português porque não pensávamos como brasileiros, pois se assim fosse aproveitaríamos aquela ocasião ímpar para nos libertar, com o moral alevantado ao mais alto grau pela vitória que conseguíramos impulsionados por vontade própria, nascida e concretizada na então colônia, pela primeira vez manifestando um genuíno sentimento de nativismo. Eram três povos que pela primeira vez lutavam com um objetivo comum.

Nosso imenso território foi conquistado pacificamente, e muitas vezes inconscientemente, com os boiadeiros, os garimpeiros e os bandeirantes empurrado o limite do Tratado de Tordesilhas para cada vez mais longe, e depois por meio de tratados que reconheciam situações de fato, criadas pela ocupação de territórios por parte de nossos antepassados.

O Brasil de hoje tem uma imensa dívida de gratidão para com todos esses verdadeiros super-homens, que nos precederam e nos deram a conformação territorial atual, estruturaram nossa cultura e nossa autodeterminação, mas nunca expressa essa gratidão, ou se faz, fá-lo com timidez, sem planejamento e sem continuidade, Isto tem dado margem a que se homenageiem nossos compatriotas quase que exclusivamente sob a emoção de um acontecimento, às vezes sem maior relevância e muitas vezes forjados por interesses menores e casuístas. O exemplo mais enfático é a morte de João Pessoa nos idos de 1930 quando, como candidato a Vice-Presidente da República, teve seu assassinato transformado ficticiamente em assunto de interesse nacional, pela manipulação, de um crime puramente passional e conjugal, em atentado de lesa-liberdade nacional. E João Pessoa ganhou a imortalidade dando seu nome à capital de seu estado natal e recebendo um conjunto memorial em que é representado de corpo inteiro.

O brasileiro, de um modo geral, conhece muito mais os heróis e a história da Grécia, de Roma, da França e dos Estados Unidos que a do próprio Brasil. Do país norte-americano, então, até as crianças e os semi-analfabetos falam, comentam e admiram, e com isto nossa dependência, inclusive cultural, aumenta sempre.

Precisamos reagir. Sem xenofobismo, mas precisamos reagir. Temos que mostrar, ou melhor, temos que tornar os brasileiros conscientes de que temos um passado que nos orgulha, personalidade própria e um futuro grandioso; de que temos uma identidade como nação e que precisa aflorar em toda a sua plenitude. Se no passado pensávamos como portugueses, após a república como franceses e depois da 2ª Guerra como norte-americanos, por que não podemos – como devemos – pensar como brasileiros?

Precisamos trabalhar nossa mentalidade para enfrentar os problemas e o "jeitinho brasileiro", e isto não é fácil, é muito difícil. Exigirá planejamento, constância e tenacidade; divisão de tarefas; avaliação de resultados; correção de rumos; e sempre, sempre vontade de fazer. Não poderá haver estrelismo.

- É preciso acatar todas as boas sugestões, venham de onde vierem.

- É preciso acreditar na importância do trabalho que se está fazendo.

- É preciso estar convicto para poder transmitir convicção.

- É preciso estar consciente de que não haverá resultados imediatos.

- É preciso saber que provavelmente não descansará à sombra da árvore que está plantando, mas continuar plantando. Há e haverá muito trabalho a fazer, mas não se está sozinho, muitos outros foram chamados à lide e estão respondendo "presente".

- É preciso acreditar na vitória.

Por maior que seja a importância das ações dos nossos ancestrais e os movimentos e acontecimentos que fundiram o Brasil, nenhum deles foi maior que a Inconfidência Mineira, protagonizada pelos inconfidentes. O ideal e a abrangência da Inconfidência Mineira não visaram a alcançar fins locais, e sim a independência nacional. Sua pregação e preparação estenderam-se para além das divisas de Minas, a outras províncias, e foram estabelecidos contatos com personalidades d'além mar; portanto, sua denominação em minha modesta opinião, não deverá conter adjetivos, sendo nomeada simplesmente de A INCONFIDÊNCIA, por ter sido a única que tentara, até então, materializar nosso sonho de liberdade.

Apesar de o mundo oficial ter conhecido a transcendentalidade da Inconfidência, proclamando como Patrono da Nação a Tiradentes, a população brasileira até hoje não a assimilou, vendo no Protomártir um herói mais mineiro que nacional, e no panteão dos heróis que o ideário cívico popular de cada estado construiu, ele ocupa lugar de menor relevo, por exemplo, que Osório e Bento Gonçalves no Rio Grande do Sul, e Vidal de Negreiros, Felipe Camarão e Henrique Dias em Pernambuco. A população ainda não compreendeu com clareza quem foi e o que fez Tiradentes para ser entronizado no altar-mor da Nação Brasileira.

Repetindo: Tiradentes, fora de Minas Gerais, é uma figura distante, qual se fora apenas um herói mineiro.

Para a quase totalidade do Brasil a Inconfidência Mineira é comparada à Insurreição Pernambucana, com até menor significação, por que nesta o invasor holandês foi repelido, não se atinando que lutamos como portugueses e não como brasileiros. A Guerra dos Farrapos é um hino à altivez gaúcha, mas ocorreu num Brasil já independente, e em certo momento houve até intenção de secessão, com a proclamação da República do Piratini. E assim em todos os Estados de Federação.

Nosso objetivo é, sem deslustrar nenhum movimento ou herói estadual, conscientizar a todos de que a Inconfidência foi a primeira tentativa de concretização do ideal de liberdade que já começava a invadir os corações brasileiros, e que de seus autores o principal foi Tiradentes, um homem comum, com muitos dos defeitos de todos nós, porém idealista, para acreditar na liberdade futura do país; intrépido, para poder enfrentar todos os riscos que sabia existirem; incansável, para poder percorrer as longas distâncias até o Rio de Janeiro, várias vazes e durante alguns anos, pregando a liberdade; confiante, para acreditar que suas idéias vingariam; forte fisicamente, para enfrentar as cansativas jornadas que empreendeu, e moral e psicologicamente, para enfrentar com serenidade o martírio; altivo, para enfrentar seus julgadores sem jamais baixar a cabeça; e convicto de suas idéias, para por elas morrer com dignidade.

Como parte importante desse processo de ensinamento e conscientização da população é imprescindível construir um grande parque memorial, em pedra e aço, com os símbolos nacionais e as estatuas de todos os inconfidentes, porém com dimensões monumentais e em amplo espaço, para transmitir sensação de força e grandiosidade e causar impacto. A área, com tais obras, poderia ser tomada como verdadeiro Berço da Pátria, e contaria ainda com infra-estrutura capaz de permitir-lhe receber peregrinações cívicas e culturais, além de constituir-se em atração turística nacional.

Tal área seria escolhida em região palmilhada por Tiradentes e contornada pelas cidades vizinhas, que seriam ligadas a ela por estradas asfaltadas. Essas cidades não perderiam suas relíquias para o futuro Berço da Pátria; pelo contrário, o complementariam conservando-as, e se beneficiariam do fluxo turístico que seria criado. A área deverá necessariamente ter grandes dimensões, para poder conter bosques e lagos, além de todas as construções funcionais e de apoio.

Para aqueles mais céticos ou imediatistas, darei apenas dois exemplos de iniciativas tomadas sem maiores pretensões, que hoje são atrações nacionais e internacionais, e cujo segredo para o êxito foi a perseverança na busca de realizar seu ideal:

- Há cerca de 50 anos um gaúcho, ex-sargento da Aeronáutica, casou-se com uma jovem cujo pai possuía uma fazenda no distrito de Fazenda Nova, lugarejo a 180 km de Recife, edificado entre morros e pedras. Naquele ambiente que lhe pareceu semelhante ao da Judéia, teve a idéia de fazer algo parecido com Jerusalém, para ambientar melhor as comemorações da Semana Santa. Pouco a pouco, com os próprios meios e aquele sonho sempre presente, foi erigindo com pedras os muros e construções, até conseguir formar um palco ao ar livre, que dizem ser o maior do mundo, a que deu o nome de Nova Jerusalém. As solenidades da Semana Santa atraem hoje milhares de pessoas do Brasil e do exterior e são protagonizadas por artistas de renome.

- Há várias décadas alguns colonos, não sei bem como, começaram a embelezar a criar atrações em uma parte das serras gaúchas, com paciência, capricho e continuidade, dando origem ao conjunto turístico de Gramado e Canela, que na realidade nada têm de especial, mas onde a limpeza, a beleza, o ajardinamento e a infra-estrutura adequada atraem turistas do cone sul e de todo o Brasil, que viajam até 5.000 km para visitá-lo.

Para viabilizar o que chamamos Berço da Pátria, é imprescindível, é fundamental que atuemos desde o primeiro momento através da mídia, que devemos procurar conquistar e acionar permanentemente.

Todos nós sabemos do poder dos meios de comunicação, principalmente da televisão, embora menos acessível para nós que o escrito e falado. O Brasil quase todo é servido por luz elétrica, inclusive as áreas rurais, e nos lugares mais afastados o jornal não chega, mas lá estão presentes o rádio e a TV, sendo que esta, por ser transmissora de imagens, é a que mais impressiona as pessoas.

Assim, precisamos utilizar ao máximo os meios de comunicação, alimentando-os com profusão de dados históricos sobre a Inconfidência antes do dia 21 de abril de cada ano, não só os de Belo Horizonte, como também os das cidades interioranas dos demais estados. Além do trabalho junto à imprensa, outro meio de comunicação que deverá ser empregado ao máximo são os outdoors, nas estradas e vias expressas, e também faixas em frente às escolas.

Nas escolas deverá ser feito um trabalho especial junto aos professores, procurando motivá-los para que, independentemente da matéria que lecionem, procurem sempre mostrar aos seus alunos a importância e o significado para o Brasil da Inconfidência e de Tiradentes. Este trabalho junto aos professores terá de ser feito com muita habilidade e sinceridade, sob pena de ser contraproducente como o foi em parte a cadeira de Moral e Cívica, introduzida pelos militares com a mais patriótica das intenções. A dificuldade maior em tal área é que o professor deve transmitir não só um ensinamento, mas uma idéia; suas palavras devem atingir não só o raciocínio e a memória, mas também o coração e o sentimento. E isto somente será alcançado se o professor estiver convencido do que estiver fazendo.

Como os senhores estão vendo, a jornada a percorrer é longa e os obstáculos serão muitos, mas em compensação não temos prazo para concluí-la. Vamos trabalhar calmamente, porém sem parar. Vamos começar. Qual Simão haverá sempre alguém para nos ajudar a carregar a cruz. Vamos iniciar a jornada que outros terminarão.


Adalberto Guimarães Menezes


Cad. n° 72 – Joaquim José da Silva Xavier








Reconhecimento da Pátria aos Inconfidentes

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